sábado, 20 de junho de 2020

Lua de Cristal, o filme - 30 anos

Falar dos sucessos na carreira de Xuxa é assunto extenso e, por vezes, polêmico. Mas existe um ponto que acreditamos ser consenso nessa classificação: o filme "Lua de Cristal"; a história de Maria da Graça, a moça do interior que vem para a cidade grande com o sonho de ser cantora.

Essa parte todo mundo já conhece - mesmo que nem seja fã do filme - mas e a história por trás das câmeras? Como tudo começou e, principalmente, como consegue permanecer tão vivo na memória de tanta gente?

São 30 anos de lançamento do longa metragem, mas nossa viagem começa bem antes. Prepare seu banho de leite, coma seu Big Babalu (ou aquela sopinha de legumes 😉), se aconchegue com seu travesseirinho de estimação e boa leitura! A partir de agora, o sonho está no ar...





"Qualquer semelhança com nomes, pessoas..."
Impossível começar a falar dos nossos protagonistas sem se lembrar desse famoso aviso das novelas/minisséries e que, por sinal, talvez devesse também aparecer nos créditos finais de "Lua" (já que tem muita gente, até hoje, que pensa que esta é a cinebiografia da loira). 

Maria da Graça Xuxa Meneghel e Sergio Neiva Cavalcanti são amigos de longa data; no final da década de 70, se conheceram no subúrbio do Rio, a amizade aconteceu e permaneceu. Sim, só isso. Xuxa já sabia da fama de Mallandro e, mesmo com as investidas do rapaz, não deu margem para outros sentimentos.

A amizade de Maria da Graça e Sérgio Cavalcanti já é coisa antiga, bem antes de ficarem famosos

Em 1989, os dois já tinham seus nomes marcados no universo infantil, Xuxa dispensa maiores considerações sobre essa trajetória, já Sérgio estava indo bem, comandando o infantil  Oradukapeta, no SBT desde 1987. Apesar de estarem em emissoras concorrentes, Mallandro já havia conseguido com o "patrão" uma liberação para visitar a amiga no "Xou" em janeiro de 1989, mas era pouco. 

Mallandro, contratado do SBT, ganha espaço na Globo pelas mãos da amiga Xuxa

Sérgio voltou ao programa um tempo depois para divulgar seu disco.
Rá! Pegadinha do Mallandro! Não era só uma simples divulgação, Sérgio ficou dois blocos inteiros, fez imitações, brincou e ainda recebeu o convite da amiga:

Olha, o próximo filme que eu fizer, quero fazer contigo. Vamos fazer os dois? Vamos mesmo?

Em outubro de 1989, o convite para estrelar um filme ao lado de Xuxa


"Qualquer semelhança com nomes, pessoas... ou FATOS"
Por mais que tudo em que Mallandro esteja envolvido pareça brincadeira, o convite foi sério. Estava começando uma nova tradição na indústria cinematográfica: férias de julho era sinônimo de filme novo da Xuxa; começou com "Super Xuxa Contra Baixo Astral" (1988) e seguiu com "A Princesa Xuxa e os Trapalhões" (1989). 

Unir o universo de Xuxa ao de outra referência infantil já tinha dado certo com os Trapalhões, por que não daria de novo? Além de haver a sintonia genuína entre os dois, Mallandro agregaria um novo público ao filme. Marcello Melo, da Dreamvision - produtora do filme - era defensor desse argumento; o exemplo perfeito de unir o "útil ao agradável":

"Se todas as pessoas que veem o "Xou da Xuxa" e o "Oradukapeta", forem assistir ao novo filme, somente em São Paulo, será prestigiado por quase 50 mil pessoas"
Correio Braziliense, 05/05/1990


A semente estava plantada; mas para que ela germinasse, era preciso que mais gente embarcasse na ideia. Os primeiros foram Diler Trindade, que entrou como produtor (retomando a parceria de "Super Xuxa") e Patricya Travassos, que se tornou a responsável pelo argumento.
Nota do Blog: no cinema, argumento é uma espécie de documento que relata todas as cenas do filme, não possui diálogos e foca principalmente em contar o enredo.


Patricya Travassos a frente de seu tempo: dando espaço para as questões de preservação ambiental mesmo quando quase ninguém falava disso. Xuxa falava...


🌑Lua "Nova"
Já experiente por escrever trabalhos marcantes na TV como "Armação Ilimitada"(1985) e TV Pirata (1989), Patricya recebeu o convite em novembro de 1989 e o encarou como uma espécie de terapia (e que terapia, hein?). 

Em dezembro do mesmo ano Xuxa e Sergio assinaram os contratosInicialmente a direção ficaria a cargo de José Alvarenga Jr. - responsável por "Princesa Xuxa..." - como noticiaram alguns jornais da época. Ele nos confirma o convite e explica porque não seguiu na função:

"Houve o convite, mas dentro do grupo que ia produzir o filme (Diller & Cia) havia uma 'corrente', encabeçada por Marlene Mattos, que pretendia dar a direção para Tizuka, de quem ela (Marlene) era fã. Por um período, existiu a dúvida de qual dos dois assumiria, até que decidiram-se pela Tizuka"
maio/2020 


No final de 1989, José Alvarenga Jr. foi cotado para dirigir o filme; pois ele vinha de um excelente resultado com "Princesa Xuxa"

E não só o diretor seria diferente, o roteiro inicial também tinha diferenças do que conhecemos (mas eram poucas). Sergio interpretaria dois papéis: o balconista trapalhão e o Príncipe, que seria um astro da música, que, quase sem querer, dá a Maria da Graça a oportunidade de cantar em público (Folha de São Paulo, 03/03/1990).

Pronto! Agora dá pra entender de onde tiraram a informação para escrever o resumo da contracapa da VHS...
Em fevereiro de 1990, Tizuka assinou sem contrato e assumiu oficialmente a direção. "Lua" então começava a crescer... e mudar!


🌘Lua "Crescente"
Ter Tizuka Yamasaki no comando era como um selo de qualidade, uma resposta à crítica especializada que insistia em "gongar" filmes populares (imaginem então se fossem da Xuxa). A diretora vinha de uma carreira respeitada, com três filmes no currículo e entre eles, o multipremiado "Gaijin – Os Caminhos da Liberdade", que recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado e menção especial pelo júri do Festival de Cannes.

Este filme contém o "Selo Tizuka de Qualidade*"
*reconhecido pelos Festivais de Cannes e Gramado

E qual o interesse de Tizuka numa produção popular da Rainha dos Baixinhos? Claro que o questionamento surgiu e ela não se furtou a respondê-lo:

"Quando estudava cinema, eu e meus colegas queríamos ser os autores das melhores ideias, dos projetos mais ousados. Agora pretendo mostrar que uma diretora autoral também faz filmes populares ou novelas. Quero perder o ranço de autor para as elites."
Jornal O Globo, 20/06/1990

Xuxa também teve que responder a pergunta para uma revista argentina quando o filme estreou lá, em 1992:

"Para muitas pessoas parece estranho que tantas profissionais importantes estejam reunidos para fazer um filme infantil; queria fazer uma pergunta a elas: 'as crianças então não merecem qualidade?' Então ninguém deveria fazer bons trabalhos para os baixinhos?"

A diretora contou, anos mais tarde, que também havia uma cobrança, digamos, "especial": "meus filhos tinham entre 10 e 12 anos (e a mais tinha acabado de nascer) e eles me cobravam dizendo que eu só fazia filmes para adultos" (site Educacional, em 2000).

As condições de Tizuka para aceitar? Poderia opinar no roteiro. (Estado de São Paulo, 13/06/1990)

Xuxa recebe Tizuka e Sérgio Mallandro na sede da "Xuxa Produções", três dias antes do início das filmagens

A desmitificação de Xuxa
"Eu estava trabalhando com um fenômeno da televisão e estava indignada em ver minha sobrinha, meus filhos e as crianças em volta achando que Xuxa era um Rei Midas: o que ela tocasse viraria sucesso, como se ela fosse superpoderosa, uma deusa. Então eu falei: 'não é isso! Vamos falar da Maria da Graça Meneghel, aquela que ralou, que teve que estudar, em quem muitos não acreditavam, que teve que enfrentar um monte de coisas para chegar onde chegou' e eles toparam!"
Tizuka para o site www.educacional.com.br, em junho de 2010

Ah, engana-se quem pensa que a desmitificação de Xuxa definida pela diretora tenha tirado o aspecto lúdico do filme. Num olhar mais atento, você encontrará referências a clássicos infantis como "Branca de Neve", "Cinderela" e até "João e Maria".

Estão vendo como o aviso "Esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos terá sido mera coincidência" é importante? Maria da Graça parece a Maria da Graça, mas não é...

Paralelamente, Tizuka também queria mostrar um outro lado de Sérgio Mallandro: "Procurei lapidar o Sérgio em seu lado mais 'vulgar', mas também não poderia mudar muito o modelo dele e da Xuxa na televisão, porque, do contrário, ia frustrar a expectativa das crianças" (Estado de São Paulo - 13/06/1990)

Ela não queria frustar a expectativa dos pequenos e muito menos entediar os pais que acompanhariam os filhos ao cinema. Se você já assistiu ao trailer, a frase "um filme para crianças que não é apenas um filme infantil" pode ter chamado sua atenção. Podemos dizer, inclusive, que ela vem de uma das declarações dadas por Tizuka, cerca de um mês antes do filme estrear:

Tizuka atenta aos espectadores "por tabela": pais ou responsáveis que levavam os baixinhos ao cinema. A ideia era agradar a todos



🌕Lua "Cheia" (de talentos)
Apesar do cartaz e de todos os anúncios evidenciarem "Xuxa e Sérgio Mallandro em..." é inegável que o elenco do filme é um dos pontos fortes do filme. A escalação partiu da própria Tizuka e também da equipe de Xuxa.

A diretora trouxe Julia Lemmertz (a prima Lidinha) - com já tinha trabalhado em Kananga do Japão (Manchete); Rubens Correa (Prof. Uirapuru) e o amigo Alcione Araujo (o porteiro do prédio).

Marilu Bueno, a malvada Tia Zuleika, vinha de papeis marcantes na TV como os que interpretou em "Guerra dos Sexos" e "A Gata Comeu".

Uma lua cercada de Estrelas: de atores já experientes que Tizuka já conhecia de outros trabalhos que dirigiu a artistas iniciantes, mas que corresponderam às expectativas

O grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados veio através de uma indicação de Yurika Yamasaki - irmã de Tizuka - que havia produzido um comercial com a banda e gostado do desempenho dos rapazes frente às câmeras. Independente disso, o grupo já mantinha uma relação de amizade com Xuxa desde o tempo da Rede Manchete e estavam sempre no "Xou da Xuxa". Avellar Love, o Mauricinho e também o vocalista da banda, nos conta um fato curioso: Mauricinho não era para ser "dele" e sim de outro integrante da banda, o Big Abreu.

Avellar não era a primeira opção justamente por se parecer fisicamente com Xuxa. Na história, Mauricinho é primo de Maria da Graça, mas um primo "emprestado". Explicando: Cotinha (mãe de Maria) e Zuleika (Mãe de Lidinha e Mauricinho) eram apenas "irmãs de leite". Porém, o integrante que faria o papel tinha uma viagem marcada para fora do país e coube a Avellar encarnar o primo mimado de Maria.

Big Abreu seria Junior, que virou Mauricinho, mas que na verdade foi o Avellar
(Olha, quase dá para desenvolver outro roteiro baseado nisso)

Outra pessoa que já tinha um relacionamento profissional com Xuxa era a pequena Adressa Koetz (Maria criança). Dessa vez o convite veio da equipe de Xuxa que já a conhecia por ter interpretado a princesa Xaron criança no filme "A Princesa Xuxa e os Trapalhões".
"Eu comecei a ser atriz em Super Xuxa contra o Baixo Astral". Eu estava lá no meio de 30 crianças e me escolheram para receber a boneca; não estava combinado. Foi apenas uma 'ceninha', mas ela me levou a fazer os outros filmes."
Adressa Koetz em entrevista ao Xuper Blog em fevereiro/2020

Adressa Koetz: "oi, eu sou você ontem!"


Curiosidades sobre o elenco
Estreando: Paquitas, Paquitos e Duda Little (repórter do "Xou da Xuxa") tiveram sua primeira experiência cinematográfica nesse filme. Nota: Duda aparece por alguns segundos em "Super Xuxa", sem falas, praticamente uma figurante.


Duda Little: de repórter do "Xou da Xuxa" direto para um papel de destaque em "Lua de Cristal"


No improviso: Michael Sullivan também se aventurou no ramo da atuação, mas totalmente por acaso. "Eu estava trabalhando nos arranjos das músicas e disse que passaria no set para pegar uns 'tons' de algumas músicas, pois tinha dúvida se estavam muito altos. Chegando lá, a Xuxa disse que eu seria ideal para fazer a cena. Filmei com minha roupa mesmo e nem precisei repetir" - nos contou o intérprete do Super Saliva. O nome, Saliva, aliás, é um trocadilho de Sullivan.

Sullivan: participação improvisada, gravada num take só... Nasceu assim o Super Saliva


Ia, mas não foi: o jornal O Globo, em 26/02/1990. chegou a divulgar que Claudia Jimenez estava se preparando para participar do novo filme de Xuxa, o que sabemos que nunca aconteceu. Que personagem teria a cara dela?

Estrelas no céu: infelizmente são muitos os artistas que já deixaram de brilhar aqui: Rubens Correa (Prof. Uirapuru) falecido em 1996, aos 64 anos; Cláudio Mambertti (Seu Bartolomeu), falecido em 2001 aos 60 anos; Paulo Barbosa (o Ceguinho), falecido em 2006 aos 54 anos; Leina Krespi (Dona Cotinha, mãe de Maria), falecida em 2009 aos 70 anos; Thelma Reston (Dona Rolinha, secretária da Escola de Canto), falecida em 2012 aos 75 anos e Alcione Araújo (o porteiro), falecido em 2012 aos 67 anos.


🌒Lua "Minguante"
O orçamento de "Lua", estima-se, ficou em torno de US$ 500/600 mil. Ainda que pesem registros, como o da Folha de São Paulo, que afirmam que o valor chegou em 1 milhão de dólares; o valor que mais aparece nas publicações da época é o menor. O próprio produtor Diler Trindade em entrevista ao Jornal do Brasil cita essa soma. Por via das dúvidas, ficamos com as palavras da verdadeira Maria da Graça: "ficou mais barato que o Super Xuxa" (Folha de São Paulo, 16/06/1990). Lembrando que "Super..." custou US $1,5 milhão em 1988.

Merchandising: uma das estratégias era diminuir o número de anunciantes no filme para passar mais veracidade. Se compararmos a "Super Xuxa", veremos que essa preocupação foi levada a sério. Apenas seis empresas aparecem: Postos Atlantic, Viação/Cargas Itapemerim, Caldo Maggi (Nestlé), Supermercados Sendas, Mac Audio e Palcos Estub (Grupo João Mendes)

Merchandising em "Lua de Cristal": menor escala e mais orgânico se comparado a "Super Xuxa"

Plano Collor: mesmo ficando mais barato e com suas cotas de patrocínio vendidas, a situação não foi fácil. Em março de 1990, tomou posse o presidente Fernando Collor de Mello. O Brasil amargava absurdos índices de inflação (cerca de 84% ao mês) e sob o pretexto de conter a situação, veio o Plano Collor. E o que o filme tem a ver com isso?

Entre as medidas tomadas estava uma que determinava que que 80% do dinheiro aplicado (conta corrente, poupança e aplicações) ficasse retido no Banco Central por 18 meses; o famoso "confisco das poupanças". A partir daquele momento, tanto pessoas físicas ou jurídicas, só poderiam sacar cerca de 50 mil cruzados novos (cerca de 8,3 mil reais nos dias de hoje).

Descollorindo: o novo plano econômico afetou toda a produção cultural do país

"Lua" estava no meio de sua filmagens e a Dreamvision, produtora do filme, viu praticamente metade de seu orçamento "preso". Nessa hora, os versos do refrão da música - "todos somos um" -  pareceram fazer mais sentido;

"Os que ganham mais abriram mão em favor dos técnicos e motoristas, umas 45 pessoas que precisavam de dinheiro para comer"
Tizuka para o Jornal do Brasil, em 08/04/1990

Embrafilme: Como se não bastasse, outra rasteira: Collor extinguiu a Embrafilme, produtora e distribuidora estatal que ajudou a colocar no mercado mais de 200 filmes brasileiros entre 1969 e 1990. "Sem Embrafilme, sem Lei Sarney e sem alternativas, o cinema brasileira corre o risco de parar", disse Tizuka ao Jornal do Brasil. A previsão, infelizmente, estava certa...



💪"A Turma Invencível"
Com ou sem Plano Collor, as coisas tinham que andar. Havia prazos a se cumprir e Tizuka considerava isso um desafio. E desafios não pareciam ser problemas para a "Turma Invencível". Oi? Como assim? E esse nome saído de algum desenho animado de super herói?

Pois é, um dos fatos mais curiosos de toda a história é que "Lua de Cristal" nunca foi a primeira opção de nome para o filme. Parece tão absurdo imaginar um nome que não seja esse... Mas existiu! E, como podem ver, não era dos mais inspirados.

"Algo de errado não está certo"
(A mente de qualquer pessoa quando descobre que esse seria o nome original do filme)
😄

"Xuxa e a Turma Invencível", eis o nome escolhido para contar a história de Maria da Graça e Bob. Felizmente, no meio do período de filmagens, algo aconteceu que garantiu que esse nome não saísse do papel...

Sullivan & Massadas entram para a Turma Invencível
A produção havia encomendado algumas músicas para a dupla Sullivan & Massadas - já tinha dado certo em "Super Xuxa", então para que mudar? Mas dentre essa leva de canções estava a que mudaria tudo.

"Nos disseram que o filme seria meio romântico, doce... Melodia e letra nasceram na mesma hora, foi uma composição rápida. Gravei num gravadorzinho pequeno, aqueles de cassete, foi voz e violão. Tinha a força de um musical. Eu trabalhava de maneira adulta para criança. Mandamos a fita, a Xuxa já tinha começado as filmagens. Quando ela e a equipe escutaram, me ligaram de volta: 'Que linda a música! Vamos mudar o nome do filme!'. Nem precisei alterar nada na composição." 
Michael Sullivan em entrevista ao Xuper Blog

Mudar o nome? Sim, até aquele momento o filme seguia como "Xuxa e a Turma Invencível". Inclusive o verso "nós somos invencíveis, pode crer" existe por conta do título anterior. A mudança foi noticiada em 31/03/1990:

"Nós somos invencíveis, pode crer...
(Mesmo assim a letra manteve a referência ao título anterior)

Diler Trindade nos conta que a mudança do nome não foi tão simples quanto parecia. O refrão ressaltava a importância da Lua, mas no filme não tinha nada que se referisse à lua. A solução foi incluir cenas em que Maria conversasse com ela, a lua se tornaria sua confidente ("oh, lua madrinha...") e, consequentemente, uma espécie de personagem.

A música foi composta por Sullivan, Massadas e... Xuxa! Por que não? A letra foi feita em cima de tudo que a Rainha falava em seus programas, seus "bons dias" e sua forma única de conversar com Deus. Para uma live de instagram organizada pela revista Marie Claire, Xuxa sintetizou de forma ímpar o processo de composição de "Lua de Cristal":
"A música não foi feita para mim, foi feita de mim"

🎼O Filme em Música
Além da música título, outras onze músicas compõem a trilha sonora original:

Maria da Graça canta a "Verde Que Te Quero Verde" quando sua plantinha começa a crescer. Na mesma live em que definiu a composição de "Lua de Cristal", Xuxa se lembrou da canção e ressaltou como ela ainda soa atual mesmo passados 30 anos.


Uma das preferidas de Sullivan, "Conto de Fadas" é também cantada por Maria da Graça no momento em que as coisas começam a se ajustar na vida da personagem.


Interpretada pelo grupo Funk Brasil, "Diga Alô" faz parte da cena em que Maria chega à cidade e se encanta com os grupo de funk /hip hop do Rio. Mesmo com Abdullah, um dos vocalistas da faixa, lançando seu primeiro LP no ano seguinte (1991), a música ficou exclusiva à trilha do filme.


A dupla de compositores agora aparece como intérprete. Eles não aparecem no longa (bom, Sullivan aparece, mas como Super Saliva que nada tem a ver com a música). "Dança da Vida" era tocada de fundo durante os sonhos de Maria da Graça e na cena final. Também foi feita sob encomenda para a história.


Interpretada por Cláudio Negão, "A Cidade" tocava enquanto Maria procurava emprego. Cláudio não chegou a se lançar como cantor, ficando seus registros fonográficos resumidos a essa faixa e a uma participação no disco do Trem da Alegria, lançado no mesmo ano (música A Rap Iou, também de Sullivan e Massadas)


Interpretada pelas Paquitas, "Mangas de Fora" provavelmente ficou mais conhecida que as outras duas interpretadas por Xuxa no filme; isso porque ela teve uma "sobrevida" integrando o repertório do segundo disco das meninas, lançado em 1991. No filme, a música toca quando Maria faz a super faxina no apartamento de Tia Zuleika. Na versão de 1991, os vocais foram totalmente regravados substituindo os de Tatiana Maranhão (que deixou o grupo em 1990).


Os Paquitos também participaram da trilha sonora. "Chá com Porradas" toca no momento que a lanchonete Babalu é destruída. Ao contrário das Paquitas, a música deles nunca foi lançada, até porque o grupo não teve chance de lançar outro disco depois do filme. Massadas explica que a ideia era fazer um trocadilho para "chá com torradas."



No longa, "O Bob não é Bobo" aparece em versão instrumental, mas a faixa tem letra e é originalmente interpretada por Sérgio Mallandro. Toca na hora que Bob encontra Maria pela primeira vez. Apresentada em sua versão cantada no "Xou da Xuxa" no dia 21/06/90, mesmo dia do lançamento do filme.



Sylvinho (do Ursinho Blau Blau) interpreta "Achados e Perdidos", que aparece apenas listada nos créditos finais do filme, não tocando em nenhuma cena. Pela letra percebe-se que ela seria perfeita para o momento que Maria sai à procura de emprego.



Assim como "Achados e Perdidos", "Dragão da Gang" dos Miquinhos Amestrados aparece na lista de músicas dos créditos finais, mas ainda é uma espécie de incógnita, pois, até hoje, não existe nenhum registro fora do filme e o que toca nas cenas em que Mauricinho assedia Maria é apenas um trecho instrumental. Avellar Love, o vocalista do grupo, nos explica melhor de onde veio a música:
"Mauricinho não teria música-tema, mas no meio das filmagens, pediram que fizéssemos uma. Tínhamos feito uma música para o musical Splish Splash (1988) com a Claudia Raia, mas a letra tinha uns palavrões, então alteramos. O 'dragão' da gang era, por exemplo, o 'f*dão' da gang"
Avellar Love para o Xuper Blog, 2020


O "Tema da Morte de Maria da Graça" é a única faixa originalmente instrumental, como o nome já diz, toca no "quase" derradeiro momento de Maria.


Embora a relação oficial das músicas só apresente essas doze, existiam faixas incidentais que apareciam em momentos variados do filme. No making of, o produtor musical Ary Sperling explica: "na parte da tia e da prima, eu tentei colocar uma coisa meio infantil, mas orquestral, como se fosse "Pedro e O Lobo". Uma coisa meio 'torta", pois era meio maluca a forma como elas maltratavam a Maria da Graça".

Mesmo o filme tendo sido o maior sucesso de bilheteria até então,  sua trilha sonora nunca foi lançada comercialmente. O jornal Folha de São Paulo até chegou a anunciar que naquele natal de 1990 o disco sairia, mas ficou só no sonho dos fãs.


Até os baixinhos já foram vítimas de fake news...
Se bem que não mencionaram no Natal de qual ano, né?
(sempre há esperança)

Mas nem tudo estava perdido para quem sonhava com essas canções. Onze anos depois, em 2001, a Som Livre decidiu lançar o filme em DVD e entre os "extras" do disco estava o DVD-kê que trouxe seis dessas doze músicas na íntegra: Lua de Cristal, Verde Que Te Quero Verde, Conto de Fadas, Mangas de Fora (na versão original), O Bob Não É Bobo e Achados e Perdidos. Aliás, se não fosse esse lançamento, até hoje "Achados e Perdidos" estaria "perdida"...



🎞️Linha do Tempo
Filmagens
Tudo começou num domingo, 04/03/1990, e se estendeu por quatro semanas, encerrando também num domingo, 01/04/1990. Filmar dentro do prazo planejado era um dos desafios de Tizuka. Desafio cumprido e, considerado por ela, uma vitória de toda sua equipe.

Reunião da "Turma Invencível" na antiga sede da Xuxa Produções em 01/03/1990


Estratégias - Campanha "Doe a Quem Dói"
Em 23/04/1990, Xuxa foi até o Ministério da Ação Social onde foi recebida pela então primeira-dama e presidente da LBA (Legião Brasileira de Assistência), a sra. Rosane Collor de Mello. Sua intenção era dar continuidade ao que tinha iniciado com "A Princesa Xuxa e os Trapalhões": uma parceria para beneficiar crianças de creches assistidas pela LBA.

Ano passado, pedimos agasalhos. Mas percebemos que o principal problema das crianças carentes é a fome. Por isso agora solicitamos alimentos"
Xuxa - Correio Braziliense de 24/04/1990

No encontro ficou acertado que as doações ocorreriam no dia da estreia quando os espectadores levariam um quilo de alimento não perecível para trocar por seu ingresso. O encontro virou notícia no Jornal Nacional. A expectativa de arrecadação era em torno de 100 toneladas de alimentos (Jornal Nacional - 18/06/1990) e no dia 30/06, Xuxa informou no "Xou da Xuxa" o que hoje poderia se transformar num meme do tipo "as definições de 'superar as expectativas' foram atualizadas com sucesso"... Foram 450 TONELADAS de alimentos arrecadadas.

Xuxa faz a entrega simbólica dos alimentos arrecadados na estreia do filme: 450 toneladas. A campanha foi uma parceria de Xuxa com a LBA (na época coordenada pela então primeira-dama, Rosane Collor)

Pré-Estreias
Nos dias 14 e 15/06, São Paulo viu "Lua de Cristal" em primeira mão. No dia 14, o Cine Liberty  (Av. Paulista) fez duas exibições como parte de uma parceria do suplemento "Folhinha" do jornal Folha de São Paulo e a Columbia Tri-Star Films. No dia seguinte, a exibição aconteceu no Cine Marabá e essa foi a "oficial", por assim dizer. Estavam presentes Xuxa, Sérgio Mallandro, Paquitas e Paquitos. A plateia era formada por 1500 crianças da Febem, que, além do filme, ainda curtiram um pequeno "xou" da Rainha.

Xuxa canta (e encanta) na pré-estreia de "Lua" no Cine Marabá (SP)

Pela foto já dá para se ter uma ideia do que foi a pré-estreia no Cine Marabá...


Em 18/06, foi a vez de Maceió receber sua primeira pré-estreia de uma produção de Xuxa. Alagoas é o estado natal de Rosane Collor e, como já mostramos, havia a parceria da LBA com Xuxa. Na plateia, 500 crianças das creches da LBA e, claro, a primeira dama.

Jornal Nacional de Cristal: a pré-estreia realizada em Maceió foi tema de uma reportagem do mais famoso telejornal da TV brasileira


Xuxa não pôde ir na pré-estreia do Rio de Janeiro, mas enviou Adressa Koetz para representá-la. A "Xuxinha" falou com as 600 crianças da LBA do Rio e também com os filhos dos funcionários das empresas de Xuxa, lembrando a importância da campanha "Doe a quem Dói".

Adressa também representou a Rainha em compromissos profissionais


Estreia
O filme ganhou as telas do Brasil inteiro no dia 21/06/1990 em 137 cinemas (Folha de São Paulo, 16/06/1990). Xuxa e Sérgio Mallandro acompanharam a estreia no cinema Casa Shopping 2, na Barra da Tijuca. A sala, com capacidade de 650 lugares, não foi suficiente para acolher as mais de mil crianças que tomaram o saguão do shopping. Detalhe: era só para a primeira sessão.

21 de junho: a grande estreia de "Lua de Cristal"
Xuxa e Sérgio acompanharam de perto a emoção da criançada

Em Brasília, o Corpo de Bombeiros chegou a ser acionado para conter o tumulto e evitar acidentes; crianças esperavam por mais duas horas para conseguir entrar nos cinemas (Correio Braziliense, 22/06/1990).


Curiosidade: O baixinho que fosse assistir a uma das pré-estreias (ou a estreia do Rio de Janeiro) ganhava um postal autografado por Xuxa e Sérgio Mallandro, numa ação em parceria com os Supermercados Sendas e a C&A.

Postal distribuído nas pré-estreias e na estreia do Rio de Janeiro

E quem não quer? Se você gostou do postal que a produção da Xuxa mandou fazer, imagine ter registros incríveis do filme? Essa é para quem ama itens de cinema; "Lua de Cristal" ganhou seus "Movie Lobby Cards", um costume da época. Esses cards eram afixados na entrada dos cinemas (por isso também chamados de "Front of House Cards"), geralmente junto ao poster e traziam fotos de cenas do filme ou do elenco (como uma espécie de apresentação). Eram fundamentais para ajudar na divulgação. "Lua" teve oito lobby cards produzidos.

Era mais ou menos assim a disposição dos lobby cards nas entradas dos cinemas. Notem que não necessariamente todos reproduziam cenas do filme, há um que mostra os Paquitos posando com os instrumentos musicais nos bastidores



🔊Repercussão
Que a crítica especializada não morre de amores pelas obras cinematográficas de Xuxa não é novidade nenhuma. Menos novidade ainda é dizer que a loira nunca se importou com isso, pois sempre deixou claro que os filmes eram para as crianças e se elas gostassem, era porque tudo tinha dado certo.

Mas não é que "Lua de Cristal" acabou se tornando um dos filmes mais elogiados da carreira da loira? Os críticos baixaram um pouco a guarda e rolou até elogio para sua atuação. Entre os pontos altos destacaram também a parte técnica (fotografia e o som Dolby Stereo - o primeiro da rainha a ter essa qualidade de som), a direção de Tizuka Yamasaki e a atuação do elenco, em especial a de Duda Little.


Uma promoção curiosa aconteceu no jornal Folha de São Paulo (através da Folhinha) com o apoio da Art Films e da Xuxa Produções: as crianças deveriam escrever dizendo o que tinham gostado e não gostado no filme. O vencedor ganharia passagens para visitar o "Xou da Xuxa". Prêmio para criança nenhuma botar defeito!

O vencedor foi um baixinho de Curitiba (PR), Allison Rosa, na época com 12 anos. Sua crítica: "Eu gostei. Minha irmã adorou porque ela adora a Xuxa e quer ser Paquita(...) Prefiro filme com mais ação e emoção. Acho que o filme foi feito para as meninas, por isso o nome foi 'Lua de Cristal'. (...) O que mais gostei foi do Sérgio Mallandro (...), foi o melhor do filme para os meninos, porque nós gostamos de heróis disfarçados em pessoas bem comuns. Também gostei do que ninguém gostou: da tia e dos primos de Maria da Graça. Se não fossem eles, nada de interessante teria acontecido".

Percebe-se o quanto a estratégia de ter a presença de Mallandro para atrair o público masculino foi acertada.

Se o filme era feito para as crianças por que não ouvir as críticas deles?


🙏🏻"Eu vou tentar melhor do que já fiz..."
Não adianta, entra filme, sai filme, Xuxa sempre vai dizer que não é atriz, mas o que Tizuka tinha a dizer sobre isso?  A diretora não economizou elogios em suas declarações:

Tizuka foi só elogios para a Maria da Graça verdadeira



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Já na segunda quinzena de agosto de 1990, o VHS de “Lua de Cristal” foi lançado (Jornal do Brasil, 24/08/1990)Outro sucesso! Diversos rankings, publicados tanto no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 31/08, 07/09, 14/09/1990) quanto em São Paulo (Folha de São Paulo, 29/12/1990) mostram que a fita estava entre as mais desejadas ou alugadas. O sucesso foi tanto que, segundo o Jornal do Brasil, de 17/11/1990, dois meses e meio depois de lançado em vídeo, Lua de Cristal tinha ultrapassado o número de cópias vendidas de “ET”. Até aquele momento, eram 23 mil cópias vendidas, enquanto o filme de Steven Spielberg tinha parado em 20 mil. 



Curiosidade: Na fita, antes de começar o filme, Xuxa aparece num pequeno vídeo feito no cenário do Xou da Xuxa, anunciando os trailers das fitas dos filmes “Super Xuxa Contra Baixo Astral” e “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” e comentando rapidamente sobre a mensagem que  "Lua" passava. 


Durante agosto e setembro, anúncios da VHS (juntamente com o disco "Xuxa 5") vinham encartados nas revistinhas em quadrinhos da Editora Globo.

Em 1998, o filme foi relançado em VHS através da ação “O Globo no Cinema”. No dia 29/03/1998, quem compasse o jornal e pagasse mais R$ 3,90, levava a fita e um pôster do filme. 

"Lua de Cristal" foi a primeira VHS da coleção XUXA distribuída pelo jornal "O Globo" em 1998. Infelizmente a coleção só estava disponível para os estados do RJ, SP, MG e ES


"Lua de Cristal" só chegou ao formato DVD em 2001 (pela Som Livre) e  foi relançado em 2017 (pela Bretz Filmes). Se quiser saber mais sobre esses lançamentos, clique no link abaixo:


Lançamentos em DVD: Som Livre (2001) e Bretz Filmes (2017)


De Volta aos Cinemas
Mesmo com a fita VHS já lançada, o filme voltou aos cinemas no período de 05 a 25/10/1990, através de uma ação promocional junto à rede de postos de combustíveis Atlantic. A rede, que não existe mais (em 1993, foi adquirida pela Ipiranga), havia patrocinado o filme e estimava a distribuição de 1,5 milhão de novos ingressos. Cada consumidor que abastecesse pelo menos 20 litros de combustível ganhava um ingresso infantil (porém, para poder assistir ao filme com esse ingresso grátis, a criança deveria estar acompanhada de um pagante). (Jornal do Brasil, 13/09/1990)

E essa pergunta da promoção, gente? Acho que nem o Bob erraria...


Para divulgar essa promoção, algumas ações foram feitas, como comerciais para a televisão e o Festival Xuxa! Sim, no cinema Casashopping, no Rio de Janeiro, seriam exibidos os três filmes: “Super Xuxa Contra Baixo Astral”, “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” e “Lua de Cristal” e o melhor: Xuxa estaria presente! (Jornal do Brasil, 12/10/1990).


🎫Bilheteria
Chegamos a um ponto controverso da história de "Lua", pois não há um número "pacífico" sobre a quantidade de espectadores. Chega-se ao ponto de um mesmo veículo registrar diversos números (em momentos diferentes, claro) e não estamos falando de ordem crescente com o passar dos meses.

O primeiro registro do Jornal do Brasil foi feito no final de dezembro de 1990, marcando 4 milhões de espectadores, três meses depois noticiou 4.023.668; o que é compreensível se arrendondaram o primeiro registro. A questão é que, em maio de 1991, o produtor da Art Filmes (que lançou Lua) deu uma entrevista ao mesmo jornal e jogou a semente dos 5 milhões: "Em quatro meses, a fita bateu o recorde nacional de bilheteria, alcançando cinco milhões de espectadores". Ok, era uma entrevista, mas em um mês subiria tanto?

E agora, 4 ou 5 milhões?

O Sindicato dos Distribuidores de Filmes do Rio de Janeiro e o site Filme B, que se tornou referência em informações sobre o mercado do cinema brasileiro, bateram o martelo em 5.028.000 de espectadores.

Finalizando, temos o site da ANCINE - Agência Nacional de Cinema contabilizando 4.178.165 espectadores, número que o Jornal do Brasil replicou em 2008 quando fez um retrospecto sobre a carreira cinematográfica da loira. Em registros da revista Época (Editora Globo) e do jornal Estado de São Paulo (quando entrevistou Tizuka Yamasaki em 2009), a bilheteria é citada como "quase 5 milhões de espectadores".

Que tal um 4 virando 5?

Uma coisa é incontestável: "Lua" é o filme de maior bilheteria da carreira de Xuxa e isso refletiu em outros aspectos:
- Lucratividade: Em entrevista ao Jornal do Brasil, de 09/09/1990, Diler Trindade diz que o filme custou US$ 600 mil e rendeu US$ 4 milhões. Nada mal, hein?
- Espectadores preferem as louras: Paradoxalmente, no ano em que o cinema brasileiro sofreu duros golpes, que afetaram a sua produção por muitos anos, os dois filmes mais assistidos do ano no Brasil foram brasileiros. Xuxa em primeiro, enquanto “Uma Escola Atrapalhada” (o filme que, apesar de produzido pelos Trapalhões, foi protagonizado por Angélica) ficou em segundo, levando 2.619.000 espectadores. 

As amigas vintage arrasaram!* Números oficiais da ANCINE


🌎Lançamento Internacional
O ano de 1990 marcou o início da conquista do mercado internacional por Xuxa, portanto era mais que natural que "Lua de Cristal" também representasse uma opção para o alcance desse objetivo. Os planos iniciais eram lançar o filme no México em dezembro/1990 (Jornal do Brasil, 09/09/1990) e América Latina em agosto/1991 (Jornal do Brasil, 23/05/1991).

Mas os planos foram adiados, Lua de Cristal, ou melhor "Luna de Cristal" somente estreou nos cinemas da Argentina em 13/02/1992, de certa forma ainda no embalo de "Super Xuxa contra Bajo Astral", que havia estreado há menos de um ano (04/07/1991).

"Hablada en Castellano"...pero no por Xuxa


Como acontecia por aqui, a crítica especializada não foi lá muito receptiva. O Clarín, famoso jornal argentino, em texto assinado por Aníbal Miguel Vinelli - respeitado crítico de cinema de lá - estampou já no título: "Xuxa, a pesar de todo" e ele reclamou de "todo" mesmo. Disse que a cena de Tia Zuleika no banheiro faria "os Três Patetas" parecerem finos cavalheiros, que Xuxa cantava como uma cabra (mas, gente!), que a história era a milésima versão de Cinderela... 

Já o La Nación pegou mais leve e disse: "Luna de Cristal" tem todos os elementos de um bom conto de fadas, mas isso se perde em razão do excesso de "anecdotas laterales, muy repetitivas". Para Suzana Freire, crítica que assina a matéria, Tizuka fez algo mais próximo de um telefilme "con interiores cerrados y medios planos bastante esquematizados". Em relação à Xuxa, a moça fala que seus esforços em oferecer uma boa atuação se perderam por conta da "falta de sincronización en el doblaje al castellano".

Curiosidades
Home Video: tal como “Super Xuxa”, "Luna" também foi lançado em VHS, dublado em castelhano. Porém, a voz que dubla Maria da Graça, ou melhor, Maria Gracia não é a de Xuxa, apesar da rainha ter mencionado que tinha planos de fazê-lo (Folha de São Paulo, 16/06/1990).



Para o mercado latino, apenas o nome de Xuxa em destaque, pois Sérgio não era conhecido fora do país

Brasil? Só se for Xuxa: Sabiam que desde que "Super Xuxa contra o Bajo Astral" e "Luna de Cristal"  foram exibidos nos cinemas argentinos, em 1992, nenhum outro filme brasileiro foi exibido lá até 1998? O jejum foi quebrado com a exibição de "A Ostra e o Vento" (Folha de São Paulo, 08/10/1998).


🔁Vale a Pena Ver de Novo
Na TV
Na Rede Globo, "Lua" teve sua primeira exibição no dia 01/02/1993 e a última em 08/04/2004, totalizando 11 exibições, praticamente uma por ano (só em 2001 não foi exibido). 

Você pode até ter visto "Lua" no cinema, mas garantimos que não perdia uma reprise sequer da "Sessão da Tarde"

Na TV paga, o Canal Brasil (Globosat) durante seus primeiros anos exibiu o longa diversas vezes, entre 1999 e 2004. A última exibição foi no canal infantil Gloob (também da Globosat) em 22/07/2012.


Nos Cinemas
Festival Internacional de Cinema Infantil: Em 2007, o filme foi exibido no Fici, festival organizado pela cineasta e atriz Carla Camurati desde 2003. O evento passou por nove cidades brasileiras.

Festival do Rio, 2015: Nos 25 anos de "Lua", o filme foi exibido no dia 09/10/2015, à meia-noite, lotando a sala do Estação Net Botafogo, e contou com a presença de Sérgio Mallandro, Tizuka Yamasaki, Duda Little, Diler Trindade e Adressa Koetz. Tizuka comemorou, ao declarar ao site do festival: "Vinte e cinco anos depois, o filme vira um clássico, convidado para ser homenageado no Festival do Rio! O mundo dá voltas, não?".

Parte do elenco e a diretora Tizuka Yamasaki acompanharam a sessão da meia-noite em comemoração aos 25 anos de "Lua de Cristal" no Festival do Rio (2015)

Cinemateca Brasileira: o longa foi exibido na Cinemateca Brasileira no dia 04/02/2018, em São Paulo, com entrada gratuita. A sessão encerrou a “Mostra Mulheres, Câmeras e Telas”, organizada pela Cinemateca com a intenção de refletir sobre o trabalho de mulheres na realização cinematográfica e destacar profissionais que atuaram em diferentes áreas da produção audiovisual.


No Teatro
Em 2015 foi feita a primeira adaptação teatral, em forma de musical. Dirigida por Pablo Lyra, a adaptação fazia parte de um projeto acadêmico da UFRJ. A peça ficou em cartaz durante o mês de julho/2015 no campus da Praia Vermelha, UFRJ, com entrada franca. Depois o musical voltou aos palcos entre os dias 26 de agosto a 16 de setembro de 2015 na Sala Baden Powell, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, também com entrada franca. 

Cartaz da primeira adaptação para o teatro de "Lua de Cristal". A peça fez parte de um projeto acadêmico da UFRJ em 2015


Nas Lembranças
Xuxa Meneghel (Record TV) - Na edição nº 7 da atração, em 28/09/2015, Xuxa e Sérgio Mallandro refizeram a cena do resgate e a "ressurreição" de Maria da Graça logo na abertura do programa. Só que, desta vez, Bob não conseguiu beijar Maria (para a felicidade de Xuxa!)



Vai que Cola 2: Em 2019, foi exibida nos cinemas brasileiros a comédia "Vai que Cola 2 - O Começo", baseado no programa homônimo exibido pelo canal pago Multishow. No filme, o humorista Marcus Majella interpreta Ferdinando, que, em uma parte do longa, entra em um "camarim mágico" e se transforma em Maria da Graça, recriando cenas de "Lua de Cristal", contando, ainda, com a participação de Sérgio Mallandro. O sonho se transforma em realidade e sua apresentação acaba passando na televisão.

Em "Vai que Cola 2", Ferdinando (Marcus Majella) se transforma em Maria da Graça com direito ao Príncipe original!



Curiosidades
Igual, mas diferente: O trailer de divulgação é quase todo feito com imagens alternativas das cenas. Se você comparar cada cena com o que está na edição final do filme, verá que todas as cenas estão lá, mas em takes diferentes. Praticamente a materialização do verso "Tudo que eu fizer, eu vou fazer melhor do que já fiz" 😁



Vocês se lembram da minha voz?  Quando Maria da Graça, ainda criança, canta para a sua mãe, muitas pessoas já notaram que a voz de Maria não é a da atriz Adressa Koetz e sim da paquita Ana Paula Almeida. “Eu não lembro direito, mas não foi uma surpresa, eu já sabia que não seria a minha voz” - nos conta Adressa. Nessa mesma cena aparece ao lado de Maria um quadro com a foto de uma menina fazendo balé. Essa menina é a própria Adressa:

Adressa Koetz interpretou, mas quem emprestou a voz para a "Maria Criança" cantar foi a Paquita Ana Paula Almeida (Pituxita)


Vamos dar um show! A cena do encontro de Maria e o grupo de hip hop/funk foi filmada próximo à Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Imaginem a Xuxa, no meio da rua, em plena época do Xou da Xuxa? "Trabalhar com a Xuxa só é difícil por causa do excessivo assédio do público. A gente tem que tomar muito cuidado com ela durante as filmagens externas, porque a adoração dos fãs não tem limites", diz Tizuka. (O Globo, de 24/03/1990)

Slave 4 U: Ao ver Maria, o primo se apresenta: “Mauricinho, seu escravo”. Esse foi um dos “cacos” (improvisações que os atores fazem em cima do texto original) feitos por Avellar Love. O artista costumava se apresentar assim, como pode ser notado na entrevista do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados no “Jô Soares Onze e Meia”, em 1989. Em entrevista ao Xuper Blog, ele nos conta: “O ‘seu escravo’ era algo que eu brincava muito, até hoje eu falo isso”.

Mangas de Fora: A cozinha bagunçada que Maria tem que limpar era a cozinha da casa da cenógrafa Yurika Yamasaki (irmã de Tizuka), no Parque Guinle, em Laranjeiras/RJ (O Globo, 28/03/1990). Ah, a escolha por limpar uma cozinha foi da própria Xuxa, pois ela relatou à Tizuka que as partes da casa que ela mais gostava de limpar eram a cozinha e o banheiro. 

A cozinha não era cenográfica, mas era da cenógrafa!

Parece mas não é: O cavalo branco do príncipe era, na verdade, uma égua. Sérgio, ao filmar a cena na Floresta da Tijuca, não conseguiu controlar o animal, que acabou quebrado uma câmera. Felizmente, não houve feridos.

Só Observo: A cena da quebradeira na lanchonete teve um espectador mais que especial: Ayrton Senna estava assistindo as filmagens e estava com muita vontade de participar da cena; quemn contou isso foi a própria Xuxa durante a live realizada com a revista Marie Claire. Poxa, Tizuka! Imagina colocar ele de figurante lá no meio, seria o easter egg mais épico da história do cinema brasileiro!

Vamos com você... : A cômica cena em que Tia Zuleika fica entalada no vaso sanitário e precisa ser socorrida foi filmada no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Segundo o jornal O Globo, de 25/03/1990, a situação arrancou gargalhadas da equipe, aplausos do público e foi aprovada por Xuxa.

Admita... na sua cabecinha de criança, você pensou se era mesmo possível ficar entalado na privada como a Tia Zuleika...

As últimas serão as primeiras:  Avellar Love nos conta que a cena de Mauricinho com Maria na moto foi a primeira cena que gravou e uma das primeiras também do filme. A gravação aconteceu no Porto Maravilha, que era abandonado na época. 

Acabou, mas tem mais: Avellar Love nos conta que os produtores olharam o filme todo e perceberam que o Mauricinho saía ileso do filme; azia todas as maldades e não acontecia nada com ele. Por isso, eles chegaram a conclusão que, quando o Bob vai enfrentar o Mauricinho e dá um soco nele, precisaria ser violento: “ele precisa sangrar". Por conta disso, já depois do término das filmagens, Avellar e Mallandro voltaram à praia de São Conrado para refilmar a cena.

A cena em que Mauricinho rapta Maria foi a primeira a ser gravada por Avellar Love

É impossível dirigir um só: A parceria com Tizuka Yamasaki se repetiu nos filmes “Xuxa Requebra” (1999), “Xuxa Popstar” (2000) e “Xuxa em o Mistério de Feiurinha” (2009) e, na televisão, nos especiais “Direito de Ser Feliz” (1996), “Natal sem Noel” (1996) e “Uma Carta para Deus” (1998).

Para você que escuta, mas não entende bem as palavras: Explicamos antes que o filme quase se chamou “Xuxa e a Turma Invencível” (às vezes chamado “e Sua Turma Invencível”). Mas a Folha de São Paulo foi mais além e chamou o filme de "Xuxa e sua Turma Incrível" (03/03/1990). Ok, a gente até perdoa, porque a Turma da Xuxa é incrível mesmo; mas o que dizer da revista Contigo, em janeiro de 1990, o chamando de "Xuxa e sua Turma Invisível"? Talvez fosse algum projeto de filme dela com o Gasparzinho, o Pluft e o Penadinho, né?


💙 O Sonho Está no Ar...
Falar - ou escrever - sobre "Lua de Cristal" hoje, depois de 30 anos é algo bastante curioso. Agora, já adultos, vamos atrás de aspectos técnicos, de curiosidades, de coisas que não nos importavam lá naqueles nossos 9, 10, 11 anos de vida...

Para fechar esse texto, queríamos poder voltar no tempo e deixar que aquele baixinho que saiu do cinema encantado e com vontade de ver tudo de novo pudesse se sentar atrás do teclado e registrar cada emoção vivida naquela sala escura em que todos olhavam para a heroína mais brilhante que conheciam...

Esse baixinho não daria a mínima para saber se a bilheteria foi 4, 5, 10 milhões; se o filme teve problema com o plano econômico, se teve 3 ou 20 pre-estreias, se precisava de cinco ou seis cotas de merchandising para pagar a produção, se o nome era outro... Ele só queria estar dentro da história, fazer parte dela, porque no momento que saiu do cinema ela era parte dele.

É... parece que deu certo. Quem está aqui escrevendo (ou lendo) é esse(a) baixinho(a). Aquele(a) que cantou a música no cinema lotado, que nem piscava até que Maria voltasse à vida, que vibrou quando Lidinha tomou uma lata de tinta na cabeça, que se perguntou se existiam fadas nas florestas, que sentiu invejinha da Duda porque ela era a melhor amiga da pessoa mais legal do filme, que tinha medo (e raiva) do Mauricinho...

Aquele(a) baixinho(a)que hoje entende que o sonho sempre estará no ar, pois os sonhos não envelhecem!



Comentários
5 Comentários

5 comentários:

Bruno Souto Maior disse...

Excelente resgate. Vocês como sempre arrasam! Viajei no tempo quando assisti ao filme pela primeira vez em VHS e fiquei louco com a música e o show da parte final. E também quando fui ver o filme no cinema do interior q eu morava, acompanhado da moça q trabalhava na casa dos meus pais. Saudades dos meus 7 anos.

Landerson Pessanha disse...

Esse filme sempre foi muito marcante para mim. Não fui da geração Xou da Xuxa pois nasci em 1996, então o primeiro contato que tive com o filme foi o VHS de 1998 do Jornal O Globo. Lembro de achar o filme sensacional, cada cena, cada música. Eu assistia várias e várias vezes, minhas cena favorita sempre for da confusão na lanchonete, amava aquela confusão. O filme foi realmente marcante pra mim, tenho uma tia que morou com minha mãe quando eu era pequeno e ela me conta que todos os dias eu acordava ela pela manhã indo no ouvido dela e falando: “Maria da Graçaaa” assim como a Lidinha faz no filme kkkk criança é criança né. Filme icônico.

Mas o primeiro filme que vi no cinema foi o Xuxa Requebra com 4/5 anos... lembro como se fosse hoje eu amando aquela sala com uma tela enorme com uma Xuxa gigante... bons tempos, espero que tenha especial desse filme também. ❤️

. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Parabéns pelo lo do trabalho que vocês dizerom, eu sou argentino morando na Argentina mas fisto de tudo o que vocês fazem com tanta dedicação, adorei conhecer coisas do filme que nim sabía, continúen fazendo esse trabalho tão educarivo para todos, besos desde Argentina 🇦🇷❤🇧🇷

Unknown disse...

AMEI!!!!!!!! EXCELENTE MATÉRIA, TEXTO, CURIOSIDADES, TUDO!!!

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