domingo, 29 de outubro de 2017

"Comercial proibido da Xuxa": verdade ou MENTIRA?

Na semana passada, a Equipe X – responsável pela postagem de vários conteúdos nas redes sociais oficiais de Xuxa – nos brindou com mais um #tbt (throw back Thursday, ou, em tradução livre, algo como quinta-feira da saudade) de deixar qualquer fã da loira satisfeito.

A foto escolhida é de 1991, um clique do fotógrafo Xicão Jones durante as gravações do comercial da sandalinha infantil “Love Xu”, que era fabricada pela Grendene.



A história de Xuxa com a Grendene começou há mais de 30 anos. Em 1986, ela firmou seu primeiro contrato de licenciamento com a empresa de calçados comandada pelos irmãos Alexandre e Pedro Grendene.

Revista Veja de 25/09/1991

De lá para cá, sandalinhas, sapatinhos e botinhas de diversos modelos com o nome de Xuxa foram surgindo em número cada vez maior. XuxaLOVE, Xuxandália, BootXu, ClockXu, LoveXu, Dançalinha, XuxaStar, Xuxete, Xuxa SweetHeart... a variedade era diretamente proporcional ao faturamento da empresa. Como já era de se esperar, tudo que envolve sucesso parece atrair uma necessidade das pessoas em criar polêmica. Imaginem então se o sucesso vier atrelado ao nome de Xuxa... Nem mesmo as famosas sandalinhas passaram ilesas à vontade do ser humano em criar histórias – maldosas – em busca de leitores, cliques e visualizações.


A linha de calçados Xuxa-Grendene lançou diversos modelos entre os anos 1986 e 2013

Foi justamente esse comercial lembrado no #tbt que gerou uma discussão infundada e que parece não ter fim nas redes sociais, afinal é sempre mais fácil compartilhar o que gera mais views do que a verdade. Uma pena que nem sempre essas duas coisas andem juntas.



A polêmica

O comercial, produzido pela agência de publicidade W/Brasil do renomado Washington Olivetto, foi veiculado na TV aberta brasileira no final de 1991 para divulgar o lançamento da Grendene. Naquela época a empresa colocava dois modelos de sandálias (ou sapatos) com o nome de Xuxa à venda por ano



Entretanto, em 2012, o diretor do vídeo, Júlio Xavier, postou em seu canal no YouTube uma versão em inglês (e inédita) do comercial. O pontapé inicial para a polêmica foi dado... literalmente.



Não demorou muito para o vídeo viralizar e sabem aquele papo de sucesso = Xuxa? Mais uma vez se comprovou: o vídeo se tornou o mais visto, até hoje, no canal do diretor. Para vocês terem uma ideia: são pouco mais de 250 vídeos postados, quase todos de comerciais antigos. Tem Pelé, atores globais, marcas consagradas... e a média de visualizações é pouco acima de 1,5 mil. Sabem quantas visualizações a “Love Xu” tem? Mais de 794 mil. Sim, SETECENTOS E NOVENTA E QUATRO MIL views. Isso é motivo de se comemorar? Seria... se não fosse a lenda que se criou ao redor do vídeo.

Nem se somarmos as visualizações dos demais vídeos, se chega ao que a "Love Xu" alcançou


Com a repostagem do vídeo por outros canais, criou-se uma história que ninguém sabe como e onde começou: "o comercial teria sua veiculação proibida nos Estados Unidos". Tudo porque supostamente teriam associado as falas das meninas a filmes adultos, representando uma “afronta aos bons costumes americanos”. De onde veio isso? O diretor nunca colocou tal informação na descrição do vídeo. A postagem original está lá para quem quiser ver, há mais de 5 anos!

O mais incrível nisso tudo? A extensão alcançada por um boato! O vídeo se tornou o “comercial proibido da Xuxa”! Até mesmo publicações que conquistaram certa credibilidade e têm um público cativo embarcaram nessa. Um exemplo é a revista Mundo Estranho, da Editora Abril, que chegou a se dar ao trabalho de construir uma arte com imagens do vídeo e incluir a sigla XXX perto do nome da sandália. Para quem não sabe, XXX é um indicativo de conteúdo sexualmente explícito. Construir uma notícia baseada em descrição de vídeo repostado em canais que não são os oficiais... qual a credibilidade disso? Pelo jeito não se preocuparam em checar as informações com a equipe de Xuxa ou Washington Olivetto...

Realmente vivemos num "mundo estranho", onde notícias são publicadas com base em afirmações não confirmadas e todo mundo passa a crer nisso...


A versão em inglês
Então o comercial foi exibido normalmente nos Estados Unidos? Não! A versão em inglês desse comercial nunca foi ao ar, mas não por ter sido proibida e sim porque esse vídeo existe com um propósito totalmente diferente.

Daniela Romano, assistente pessoal de Washington Olivetto, em conversa com o Xuper Blog, contou que a versão em inglês foi produzida para um festival de publicidade da época, sendo jamais exibida em qualquer emissora de TV. E, como sabemos, realmente não faria o menor sentido, já que o programa de Xuxa nos Estados Unidos só estreou em setembro de 1993. Mesma época em que vários produtos com o nome de Xuxa foram postos no mercado norte-americano, mas nenhuma sandália com o nome “Love Xu”.




E como explicar as declarações da Veja de que Xuxa já tinha vendido cerca de 1 milhão de pares de suas sandalinhas em solo americano em pleno 1991? Estão lembrados que o Show de Xuxa era transmitido para as comunidades “habla hispana” dos EUA? Essas comunidades representam cerca de 14% da população americana; algo em torno de 40 milhões de pessoas... Vender 1 milhão de pares da sandalinha da apresentadora que estava todos os dias na TV alegrando os niños que habitavam os EUA não parece tão impossível assim, parece?

O programa Show de Xuxa era retransmitido pela Univision, emissora de TV americana que transmite sua programação em língua espanhola, o que explica as vendas favoráveis nos Estados Unidos


Querem mais? Apostamos que 99,9% das pessoas que viram o comercial e se “escandalizaram” com as falas das meninas, não repararam que o comercial sequer tem o logotipo do fabricante ao contrário da versão brasileira. Acham mesmo que a Grendene pagaria para divulgar seu produto na terra do Tio Sam sem ao menos frisar sua marca na cabeça dos consumidores?

Que empresa faria um comercial sem evidenciar seu próprio nome?


A verdade
Que fique claro: não existe nenhuma declaração oficial, nem da Xuxa, nem de sua equipe, nem do diretor ou da agência de publicidade responsável dizendo que o vídeo foi proibido. Toda essa história foi baseada em suposições, na mais pura vontade de polemizar.

O vídeo pode causar uma interpretação de duplo sentido na parte das garotas? Pode, se você tem isso em mente ou se lhe é conveniente. Já que o problema são as falas em inglês, fica a dica: “you only see what your eyes want to see”...

A caixinha da "Love Xu": por que não se perguntam o motivo de usarem uma imagem de 1987 numa embalagem de 1991, ao invés de inventarem proibições que não existem?

Quantos registros existem na imprensa brasileira, datados da década de 90, noticiando o possível duplo sentido das falas das meninas? Todos nós sabemos o quanto a nossa imprensa adora vincular o nome de Xuxa a conteúdos como "proibido", "oculto", "obscuro"... Percebem que toda essa história de proibição é recente e nascida no mesmo berço dos memes que nos divertem? Como antes ninguém se "escandalizou" com o comercial que era exibido nos intervalos matinais da Rede Globo?

Vitrine de loja com a sandalinha em exposição em 1991:
veiculação normal do comercial na TV, vendas indo bem
e ninguém criando caso com o roteiro do anúncio.
Isso sim é "saudade dos anos 90"

"A maldade está na cabeça dos adultos que assistem", disse o diretor Júlio Xavier em conversa com o Xuper Blog. O problema, caro Julio, é que essa maldade não fica restrita às cabeças, ela escorre pelos dedos que digitam e compartilham as inverdades...


A polêmica sobre a proibição do comercial da Sandalinha Love Xu:
Dizem que "uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade",
mas uma verdade dita a qualquer tempo derruba mil mentiras


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